De volta à praça

(O título dessa crônica é de autoria do Gabriel, jovem de 15 anos, morador do bairro Zumbi, em Cachoeiro de Itapemirim. Gabriel e eu nos conhecemos durante oficina de escrita criativa que tive a honra de conduzir na Unidade de Internação Provisória, do Instituto de Atendimento Socioeducativo do Espírito Santo).


Hoje, enquanto almoçava no shopping Cachoeiro, um pensamento distante veio à tona; lembrei de quando almoçar naquela praça de alimentação era algo que estava muito além das minhas possibilidades financeiras. Em dezembro 1995 o shopping, recém-inaugurado, tinha aquela conotação de novidade – o cachoeirense entende o que estou dizendo – o point do momento era frequentar o shopping, olhar as vitrines, era um passeio importante na minha dimensão de criança à época com dez anos.

Em algum lugar do passado, na mesma praça de alimentação, seria exibido o filme Titanic, uma febre quase tão ardente quanto a paixão de Jack e Rose eternizados por Leonardo Di Caprio e Kate Winslet. Na oportunidade, já com doze, treze anos, o sonho de menina era assistir ao filme, mas na mesma proporção em que a praça de alimentação era distante, Titanic também se mantinha afastado de minhas possibilidades.

Na Escola Unidocente Itabira, aos oito anos, ingressei na primeira série – não vou me ater aqui à técnica, ao que mudou, vou escrever como vivi, como era naquele tempo – pulei toda a fase do “prezinho”, estudei até a quarta série sob os cuidados da professora Nicéia, minha tia, irmã de minha mãe, que até hoje se mantém em sala de aula – uma verdadeira heroína da educação básica. Mais tarde, convencido de que seria o melhor, preocupado com as greves no ensino público, meu pai me matricularia no Colégio Ateneu Cachoeirense, onde permaneci até o terceiro ano do ensino médio. O fato de estudar no Ateneu parece controverso a impossibilidade de acessar a praça de alimentação do shopping Cachoeiro, porém controverso mesmo era o fato de estudar em escola particular – o esforço financeiro para que eu pudesse estar naquele colégio foi grande, só me restando a opção de estudar e aproveitar o tempo ali.

O tempo. Era hora de deixar o Ateneu e pensar no vestibular, lembro de ter medo desse momento, de não conseguir, acabei prestando vestibular para Comunicação no Centro Universitário São Camilo e Direito, na Faculdade de Direito de Cachoeiro de Itapemirim – se você me conhece, já sabe o caminho que escolhi trilhar... Durante a faculdade, o shopping ainda era inacessível, costumava entrar para olhar as vitrines, usar o banheiro, trabalhar – pois é, trabalhei por um período no shopping Cachoeiro, mas essa é outra história.

Quando concluí a faculdade, já em 2008, nossa relação – a minha com o shopping Cachoeiro – esfriou um pouco; a gente não tinha mais a paixão estilo Jack e Rose, embora, de minha parte, estivesse sempre por ali – nas “aventuras” das escadas rolantes, no cinema, no sétimo andar apenas para ter vista da cidade, fotografar o Itabira, na praça de alimentação quando, vez ou outra, comprava água ou suco, uma espécie de contrapartida por estar sentada esperando o tempo passar.

Agora, enquanto almoço na praça de alimentação do shopping Cachoeiro nos percebo mais equilibrados, nossa relação mais madura, até porque daquele 1995 pra cá muita coisa mudou. Levanto-me. Compro um bombom de chocolate com recheio de morango e desço as escadas rolantes em paz.

Cachoeiro de Itapemirim - ES, 20 de março de  2024

Valquiria Rigon Volpato


Comentários

  1. Gostei bastante Valquíria, vc narrou fatos de sua vida de uma forma objetiva e poética simultaneamente. Mergulhei e me apossei do seu imaginário. Grara pela partilha.

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