Vagalume na janela
"Um vagalume na janela - e tudo o que a gente ainda não conseguiu dizer sobre saudade"
Ontem, quando a noite vinha chegando, vi um vagalume; ele dançava bem à minha frente. Era rápido, subia e descia pelo ar com velocidade invejável, cintilando de amarelo o céu quase escurecido. Lembro-me da última vez que o vi — sim, não é qualquer vagalume, conheço aquele brilho. Ele estava rodando, exatamente, no mesmo espaço; porém, eu observava da janela de outro quarto e tinha os olhos úmidos. Não sei dizer a data, mas sei que olhava pela janela tentando alcançar o céu, rezando para que minha mãe voltasse para casa; entre lágrimas e orações, ele apareceu, reluzente, e por alguns segundos me senti menos angustiada, como se ver aquele “ser de luz” me devolvesse a esperança e trouxesse paz.
Depois daquela primeira vez, a vida aconteceu de muitas maneiras — minha mãe não voltou para casa e eu troquei de janela — até que ontem ele voltou. O céu, na linha do horizonte, tinha um alaranjado típico dos pores do sol de verão, e uma grande nuvem parecia desenhar um colo acolhedor aos meus olhos. É pareidolia, a psicologia já nos ensinou a respeito, mas existem emoções para além dos padrões cerebrais.Hoje acordei com saudades de quem se foi; algumas pessoas ainda estão por perto, mas não é a distância ou a proximidade física que dita a regra. É preciso estar em sintonia, ouvir a mesma música, falar sobre os mesmos assuntos, desejar — igual — e profundamente chegar ao destino. Tem gente que anda junto, mas ficou pelo caminho. O vagalume na janela me fez perceber a saudade de quem, ainda que em outro plano, nunca foi embora. Não sei quando o verei novamente, quais reflexões meu amigo brilhante me trará quando nos encontrarmos ou em qual janela estarei; a certeza repousa sobre o que não mudou em nossos raros momentos: a sensação de esperança e paz.
Para onde vão os vagalumes quando não estão rodopiando em nossas janelas? Talvez dentro de nós, esperando anoitecer. Há luzes que, nem sempre estão acesas, mas insistem em reaparecer – e isso, às vezes, basta.

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