A metáfora da vida

Este texto foi escrito sob encomenda,
para ser lido na noite do dia 09 de julho de 2026, na "Noite Desgala".



Acontece, caros amigos e amigas, que a vida, em sua elegância de existir, faz de nós confiantes demais num prolongamento incerto da matéria. Tratamos do futuro sem sequer nos darmos conta do hoje, do segundo que, em segundos, vira ontem — essa ficção a que chamamos passado.

Se me permitem, quero dizer da vida que tive: esta navegação errante cuja embarcação segue em velocidade moderada, conduzida por outras vidas — algumas ainda vivas em oxigênio e carbono; outras, vivíssimas na memória —, todas rumo ao norte que, inevitavelmente, aponta para a morte.

Em 1943, a Consolidação das Leis do Trabalho registrou a palavra “nojo” ao se referir ao afastamento do trabalhador de suas funções em razão do luto. Para o bom português de Portugal, nojo significa tristeza, pesar, desgosto. Já para nós, brasileiros, a palavra ganhou outra versão: nojo é repulsa, asco, aquilo de que o corpo quer distância. Na travessia do oceano, as palavras encontraram novos sentidos, mudaram de roupa, vestiram-se de festa? Palavras... Quem foi que as ensinou a nadar?

Curiosamente, a noite de hoje é de Desgala — uma oposição anunciada pelo prefixo “des”. A gala, ao contrário do nojo, remete à celebração, à solenidade, ao casamento; em tese, ao início de uma nova vida ao lado de quem se ama. A gala veste o luxo. O nojo enluta a dor. A gala brinda com champanhe. O nojo, com lágrimas. Uma anuncia começos; o outro parece confirmar fins. Seria essa a metáfora da vida?

“DES”, esse pequeno prefixo atrevido que desfaz, desmonta, desarruma, desloca. Que tira a gala do pedestal, o lustre do teto, a gravata do pescoço e talvez nos devolva àquilo que somos quando ninguém exige de nós elegância: matéria provisória tentando produzir alguma permanência. Viver, desconfio, é uma espécie de desgala.

No baile da existência, a gente entra nu, sem convite, aprende os passos enquanto a música já está tocando e passa boa parte do tempo fingindo que sabe dançar. Tropeçamos. Perdemos o compasso. É aí que, às vezes, alguém nos toma pela mão e ensina que, para dançar, antes é preciso confiar. Coragem! E talvez seja exatamente disso que esta noite trate.

Das pessoas que passaram por Cachoeiro, pelas ruas e esquinas da cultura; gente que, passando, abriu passagem. Das que compreenderam que a arte possui essa estranha capacidade de contrariar a matéria, porque o corpo cessa; a obra resiste. Ainda que a voz silencie, permanece em eco, reverberando o legado de quem, apesar das batalhas, não parou de gritar. A mão já não pinta, não escreve, não esculpe, não toca — e, ainda assim, alguma coisa continua sendo criada a partir do gesto que ela deixou. Há pessoas que morrem e deixam saudade. Há outras que, além da saudade, deixam estrada — que só existe porque alguém passou.

Vida e morte não são opostas. Os opostos, dizem, atraem-se. Vida e morte não precisam se atrair: já nasceram juntas. Desde o primeiro sopro, caminhamos para o último; e é justamente entre um e outro que acontece tudo aquilo que merece nome — amor, medo, arte, fracasso, coragem, riso, nojo, gala e essa nossa necessária Desgala.

Não celebramos a morte esta noite. Celebramos o escândalo de ter havido vida, porque não há ausência sem que antes tenha existido presença. Não há silêncio sem uma voz que um dia tenha rompido o ar. Não há saudade daquilo que nunca nos atravessou. Não há legado sem gesto, nem caminho sem passos. E, sobretudo, não há morte se antes não houver vida.

É provável que esta seja a nossa mais bela e inevitável DESelegância: passar. Mas passar de tal maneira que, depois de nós, alguém encontre a porta um pouco mais aberta, o palco mais iluminado, a palavra um pouco mais livre e o caminho, enfim, possível.

Se a morte é o destino da matéria, que a vida seja o nosso modo de desobedecer.



Valquiria Rigon Volpato
9 de julho de 2026







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