Fiapo
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| "Um fiapo é pouco. É resto, fragmento, uma quantidade mínima de alguma coisa. Um fiapo de linha, um fiapo de esperança, um fiapo de voz, um fiapo de luz. Mas ainda é alguma coisa." |
Na virada do ano, a gente costuma fazer alguns rituais, daqueles que, no ano seguinte, vão mudar nossas vidas, trazer amor, dinheiro, uma viagem inesquecível, resolver um problema ou, simplesmente, nos dar um novo ano de paz.
No dia 31 de dezembro de 2023, assim como faço há alguns anos, estava em casa com minha família, comendo um jantar preparado para a ocasião, estourando um espumante, rezando um Pai-Nosso e uma Ave-Maria, desejando feliz Ano-Novo. Pedi, naquele fim de ano, ter um 2024 melhor, fiz os mesmos planos de sucesso — é provável que tenha usado alguma peça amarela.
O novo ano chegou. Trabalhei bastante, mas também fiz aquela viagem, guardei algum dinheiro, investi na construção da minha casa e, no meio do caminho... perdi minha mãe.
É. Eu sei.
Foi exatamente assim que me senti em outubro de 2024: sem muito mais a dizer. Talvez fosse o caso de revisar a lista de desejos escrita no réveillon?...
24 de dezembro de 2024, noite de Natal. A gente em casa, como de costume — dessa vez sem ela e com o vazio que deixou. Enquanto tentávamos sobreviver ao inexplicável, do meio da escuridão, perambulando pelo quintal, apareceu um fiapo de vida: um bichinho pequeno, magricela, esfomeado. Nitidamente com mais fome do que medo, aproximou-se para, quem sabe, ter a sorte de encontrar quem o alimentasse. Um pouquinho de ração numa tampa velha: foi o suficiente para aquela vida permanecer.
Assim nasceu Alexa, nossa gatinha — um presente de Natal!
Diferentemente de outros gatos que passaram, Alexa não foi embora. Não demonstrou medo, fazia questão de se aproximar — inclusive quando o choro de dor e saudade nos tomava. Ela estava ali. Decidiu ficar e nos acolher. Não demorou até que adotasse meu pai e se tornasse sua companhia: seguindo-o por toda a casa, deitada no balcão do paiol enquanto ele trabalha, junto dele quando se sente mal.
Alexa não é uma gata qualquer. Com as idas ao veterinário, descobrimos que ela nasceu estéril; não pode ser mãe de seus próprios gatinhos. Talvez por isso tenha nos adotado como seus — esses gatos grandalhões e desajeitados. Em meio ao caos, ela nos ensinou mais sobre a vida e as formas de amar; em meio à ausência, mostrou-nos uma presença atenta, silenciosa, sentinela; em meio à insegurança, fez-nos confiar, demonstrando que, às vezes, é preciso ir com medo mesmo...
Naquela noite de Natal, alguém sabia da importância de nos abraçar. Você pode acreditar ou não — eu escolhi crer —, mas Alexa foi o jeito mais gentil que Deus e minha mãe encontraram para dizer:
Ainda estamos aqui...
A vida continua.
16 de setembro de 2026.
Valquiria Rigon Volpato

Que lindo testo Valquíria 👏👏❤️
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