"Sempre tenho confiança de que não serei maltratado na porta do céu, e mesmo que São Pedro tenha ordem para não me deixar entrar, ele ficará indeciso quando eu lhe disser em voz baixa:"Eu sou lá de Cachoeiro..."

(Rubem Braga)

quarta-feira, 18 de maio de 2016

À deriva... A sós


Falar às claras, sem medo de retaliações, sem pensar em poréns e entretantos, sem ser julgado; apenas falar e esquecer que existe ouvinte. Falar. Ah se fosse fácil assim... São tantas voltas, acaba-se até mesmo perdendo o objetivo, não se diz a verdade por completo e, assim, vamos vivendo de meias verdades (ou quase mentiras?). E por quê? Medo de causar ao outro sentimentos menos nobres ou medo de causar em nós os mesmos pobres sentimentos? Por mais que doa a conclusão, por mais egoísta que possa parecer, não há preocupação com o outro. É balela. Cada um tem se preocupado consigo mesmo, levando a vida num mar de individualismos... nem mesmo quando se está “junto” realmente se está “junto”.

O “homem do futuro”, agora, segue o caminho que julga ser melhor e, apesar de estar tão acostumado a compartilhar em suas inúmeras redes sociais, não sabe o verdeiro sentido de compartilhar em sua vida real. E continua assim, dia após dia, crendo que é companheiro, cooperativo. Palavras. Apenas palavras bonitas para serem ditas em momentos oportunos, de modo que, naquela ocasião os ouvintes fiquem cativados por aquela sensação ilusória; mal sabem que a proposta coletiva do momento serve tão somente para que todos ali reunidos encontrem, cada um, seu propósito indivualista e fijam acreditar que estão juntos pelo mesmo objetivo.

No deserto de vontades não convergentes, fica à deriva o ser humano, navegando errante por mares desconhecidos ainda sem saber que está perdido. Quando tomará consciência que se perdeu? Talvez nunca ou, então, quando descobrir que chegou onde queria e, embora tendo chegado, estará a sós com sua vitória. Todos aqueles, os mesmos que foram motivados à coletividade, ficaram para trás, cada qual seguindo rumo a seu particular destino.

Aparentemente tão conectados, tão unidos, mas no fundo sozinhos, bancando os independentes, com risos rasos e dores profundas. Fala-se pouco, verdades aos pedaços, que de tão estilhaçadas nem se sabe onde se encaixam... Produto de multiplicações incertas, divisões forçadas, somas inapropriadas e diminuições traumáticas; entre tantas operações, impossível não notar algumas mutilações. Fragmentos de gente.

Embarcados no que pensam ser a vida, velejam levando consigo a bússula indicadora de nortes específicos; cada um tem o seu. Não são mais direcionados por coordenadas geográficas, são movidos por suas próprias orientações; crêem em suas convicções pré-moldadas. Pouco a pouco vão se distanciando, provocando desencontros, fazendo dos intervalos duras rupturas. Não se importam mais se vão sangrar ou se já estão sangrando. Dói? Quem sabe...? Isolados, ainda que gritem, não serão ouvidos e então todos pensarão que não há feridas... nem dor.

E então cada qual continuará o seu caminho, pisando firme, com decisão, obstinadamente; nenhum dos dois olhará para trás.” (Newton Braga).



Valquiria Rigon Volpato
18 de maio de 2016

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Sepulcros caiados


"Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda a imundícia." (Mt. 23, 27)


É preciso que haja indignação. Lamentável como uns e outros não reagem quando se deparam com mentiras e falsidades. Impossível não se sentir enojado com as tramas e tramoias que acabam por enredar o indivíduo e fazê-lo viver um “faz de contas” especialmente preparado, arranjado nos mínimos detalhes, com finalidades escusas e deslindes devastadores.

As relações humanas têm perdido o visgo que certa vez as promoveu, que as mantinha não como as conhecemos atualmente, mas como no tempo em que ainda eram dotadas de respeito, ainda que minimamente. Perdeu-se o respeito. É trágico. Não se pode olhar cenário tão catastrófico sem que haja um abalo emocional interno, estopim de revolta e asco. Não se pode entender como normal, aceitável, tantas traições descaradas e não sentir pavor, pânico, diferente do medo, contudo associado à repulsa; não se trata simplesmente de sentir calafrios, mas sim de se criar espécie de bloqueio contra o agente propagador da enganação. Extirpar do convívio sócio-habitual aquele que dissemina a daninha praga aniquiladora do crescimento é questão, literamente, de honra.

Quando, ao observar vastas plantações, nota-se a presença incontrolável de pestes, há que se atentar para o meio, identificar condições que possam estar facilitando a proliferação dos invasores. Fatores climáticos, má adubação do solo, ausentes práticas de controle, enfim, parasitas aproximam-se do que os dá condição de sustento, pois sua ação, silenciosa e ao mesmo tempo devastadora, está pautada no quanto podem sugar de suas vítimas, deixando-as enfraquecidas ou até que morram. No campo, a sorte da lavoura está no fator de identificação e início imediato do combate às pragas. Na vida, a sorte do ser humano está, também, na identificação e extermínio daquilo (ou daqueles) que o tentam aniquilar.

Perceber quando o mal está próximo, não permitir que se instale ou, caso instalado, afastá-lo o quanto antes, é a melhor garantia de não sofrer com as consequencias do aproveitamento nocivo praticado pelo agente danoso. É preciso afinar os sentidos, não se deixar levar por achismos, aparências...

A bela e frondosa goiaba, no mais alto galho da goiabeira, desperta desejo, no entanto ao tê-la nas mãos, ao mordê-la com todo afã, enorme é a decepção ao perceber que a belíssima fruta está podre por dentro, invadida por larvas, danificada; era casca. Aparência. E só. A ilusão do belo vive de momentos, não é sólida e constante o suficiente para se sustentar, não é perene, pois o que alimenta (corpo e alma) está por dentro, escondido sob o aspecto exterior, aspecto esse que também irá se deteriorar... Mais ou menos dia a mesma goiaba “exibida” estará reunida às outras tantas que, como ela, certa vez despencaram do galho e agora apodrecem no chão.

Vidas embasadas em mentiras são porosas, rapidamente se esfacelam. Não há máscara que se sustente com o passar do tempo, porque ninguém consegue ser intérprete de sí mesmo por longas datas. Cada ser humano é recheado de questões, “imperfeições”, conflitos e demandas internas; uns resolvem seus problemas, outros omitem sua existência e daí vem a farsa, início do teatro. As primeiras cenas são atrativas e até prendem a atenção do público, porém a extensa e exaustiva sequência de atos se torna desgastante e enfadonha. A plateia passa a não ter mais o mesmo interesse, arranja conversas paralelas, desvia a atenção e, ao final, sequer sabem do que se tratava a peça ou quem, de fato, eram os atores envolvidos. Uma vida teatral e chata.

Mentiras não ficam escondidas por muito tempo, disfarces são disfarces, não são reais. É como dizem: “quem é de verdade sabe quem é de mentira”. Repudiar o falso é instintivo, mas se não o for, deve se tornar atitude. Quem permanece apático ante as enganações acaba por as merecer. A verdade é bandeira dos justos, dos que possuem caráter... Aos pobres de espírito nem mesmo as mais belas peças, tecidas em fios de ouro, cairiam bem; seriam sempre trapos vestindo corpos sem alma...

Valquiria Rigon Volpato
13 de outubro de 2015

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Análise, conveniência ou desinformação?


Anualmente, quando vejo a avaliação do Poder Legislativo cachoeirense no jornal fico decepcionada, porque, de forma lamentável, tornar-se perceptível a intenção “vexatória” que o plano de fundo da matéria traz consigo.

Concordo que é preciso fazer mais, fazer melhor, elevar o nível dos debates, atentar-se ao rigoroso cumprimento das leis, fiscalizar atos do Poder Executivo, estar presente nas comunidades, NÃO como muitas vezes a população deseja - um Legislativo travestido de Executivo -, mas presença instrutora, que consiga desmistificar esse esteriótipo “desgraçado” de que vereador deve pavimentar ruas, colocar lâmpadas, patrolar estradas, construir muros, pontes, pagar contas, doar material de construção, comprar botijas de gás, limpar ruas, colocar placas, dar dinheiro para comprar o que quer que seja... Essas não, definitivamente, não são funções do Poder Legislativo. A “praga” instalada nesse conceito está no dito (sábio) da cultura empírica: “o uso do cachimbo põe a boca torta”.

Num passado, lamentavelmente, não tão remoto, e por culpa dos homens do Legislativo, a prática dos FAVORES foi associada com intimidade à capacidade de conquista de votos. Assim, parcela robusta da população acredita que para bem exercer a vereança o representante deve praticar favores como se sua função fosse, tornando cada vez mais difícil o entendimento de que os “homens da lei” devem propor ações que não extrapolem sua competência, competência essa prevista, mormente, na Constituição da República.

As cobranças populares estão com desvio de direção. Cobrar e exigir regularidade não deve ser optativo e sim obrigatório ao cidadão, no entanto não se pode lançar exigências de forma incorreta. Como exigir da vaca que produza refrigerante, se sua função natural é produzir leite? Não podemos culpar a vaca por não fornecer aquilo que não pode! Seguindo ainda no exemplo, mais prudente seria então propor parceria à vaca, de modo que com sua influência no mercado leiteiro, ajudasse a reforçar o brado por refrigerante junto àqueles que o fabricam... O Poder Legislativo pode engrossar as vozes que clamam por melhorias, pode salientar o debate de modo que o Poder Executivo, caso não esteja agindo como deveria, retome seus caminhos.

O cenário político atual não está convidativo ao olhar mais brando, menos acusador e mais observador, de fato; a presunção não é de inocência, muito pelo contrário, embora somente acusar não resolva os problemas – que são muitos. Em meio a lama dos mais tenebrosos pântanos, emerge, quase que imperceptível, a flor de lotus, assim como em meio a tanta desordem e corrupção há aqueles que querem fazer algo para mudar, que ainda trazem no coração a esperança de melhoria e exaurem suas forças em prol do bem comum. Talvez seja este o olhar necessário ao momento: o de quem não mede esforços e dá o melhor de sí para tornar menos árduo o caminhar de todos.

Poderes Legislativo, Executivo e Judiciário formam a tríade de regência social, podem ser amigos, desde que se respeitem e não queiram desempenhar um a função do outro. Quando, por qualquer questão, resolvem praticar atos que são da competência do outro, literalmente, metem os pés pelas mãos e ao invés de ajudar, acabam atrapalhando e causando mais prejuízos do que benefícios.

Particularmente, a Câmara Municipal não deveria estar preocupada em fabricar leis, como foi o mote da matéria realizada, mas sim em buscar a execução de tantas leis que após sua entrada para o mundo jurídico estão à míngua, sem efetividade. O jornal, por sua vez, deveria ir além do “basicão” e apresentar ao público as incontáveis indicações para execução de serviços, os diversos ofícios encaminhados aos órgãos e repartições púbicas solicitando desde informações à regularização da prestação de serviços, as inúmeras reuniões para estudos de projetos de lei – que devem ser de iniciativa do Poder Executivo, mas que o Poder Legislativo abraça como se seus fossem, tão somente para que o trabalho conjunto resulte no melhor para a comunidade. Em que momento a matéria mencionou o CÓDIGO DE POSTURAS, objeto de estudos, audiências públicas e intermináveis debates? Onde está a menção acerca do trabalho das comissões permanentes da casa? A Comissão de Constituição, Justiça e Redação, por exemplo, reúne-se semanalmente, mais do que uma vez por semana, analisa projetos do Legislativo e do Executivo, preocupando-se com detalhes, travando, por vezes, batalhas de opiniões técnicas tão somente para alcançar o melhor para todos e não deixar fugir à legalidade e à justiça -.

Um povo que se cala ante às mazelas políticas se torna permissivo, contudo, um povo que brada demais aos quatro cantos apenas por bradar, sem direcionamento, é como “cão que ladra, mas não morde”; chama atenção, porém não intimida. Repetição de palavras não é opinião, ao contrário do que muitos pensam e como muitos têm feito. As melhores críticas são aquelas capazes de identificar o problema, fazê-lo ser compreendido e apontar possíveis soluções – não as que queremos, mas as que, de fato, cabem.

http://g1.globo.com/espirito-santo/estv-2edicao/videos/t/edicoes/v/populacao-avalia-o-trabalho-de-vereadores-de-cachoeiro-de-itapemirim-es/4370052/

segunda-feira, 18 de maio de 2015

A "grande pensadora contemporânea": Waleska Popozuda!


Para recordar análise feita à época da discussão sobre a "grande pensadora contemporânea" que figurou numa prova da matéria de filosofia. Ainda não havia publicado o comentário que fiz em postagem do amigo (cachoeirense) Sérgio Garschagen. Vamos, portanto, a ela na íntegra, conforme escrevi no Facebook:


Amigos, relendo a questão (fiz isso algumas vezes desde que o tema virou polêmica) devo admitir que (por favor não me crucifiquem) faz algum sentido (não a parte em que ela é chamada de pensadora contemporânea... mas será que não é? O cenário brasileiro atual está tão desse jeito que começo a questionar se Waleska Popozuda, Anitta, um pessoal do axé e outros do pagode não são mesmo os "pensadores contemporâneos"...). Vejamos:

"Se bater de frente" é... é o que?!

É só beijinho no ombro? Não, não me parece a melhor opção, até porque o diminutivo (beijinho) me remete a algo mais suave, que não combina muito com bater de frente! rs.

É recalque? Também creio que não, afinal, a palavra "recalque" é derivação regressiva de "recalcar", que por sua vez nos dá ideia de calar, não deixar manifestar ou, ainda, em termos psicanalíticos seria um "processo inconsciente pelo qual uma ideia, sentimento ou desejo que o indivíduo tem por repugnante é por este excluído de admissão consciente, mas persiste na vida psíquica, causando distúrbios mais ou menos graves (Fonte: dicionário Aurélio). Assim, se bater de frente é recalque?! Penso que não...rs.

É vida longa?!?! Nesta opção repousa o maior antagonismo entre as demais, porque "bater de frente" me causa a impressão de enfrentamento, oposição, um quase guerra (!!!) que, consequentemente, não me parece ser o cenário mais apropriado para uma "vida longa". Digamos que, numa linha de raciocínio (não tão lógico, mas muito lógico se visto sob a ótica do conteúdo da expressão) os termos não se complementam! Se bater de frente (com um caminhão em alta velocidade, por exemplo) as chances de vida longa podem ser drasticamente reduzidas, quiçá aniquiladas! Portanto, definitivamente, a alternativa "d" não seria resposta adequada à questão.

Finalmente ( e de propósito) temos: "É só tiro, porrada e bomba". Fantástico! rs. Pensando bem sobre o caso (e entendo que a prova, que era de filosofia, também tinha tal cunho) a melhor resposta, ainda que o aluno não soubesse a letra a canção (?), que não conhecesse a compositora (?????), teria condições de responder a questão, usando, até mesmo (pasmem!) algo que é próprio da filosofia: o silogismo! Numa aplicação direta (de silogismo lógico) ficaria assim:

SE BATER DE FRENTE...

...É SÓ TIRO, PORRADA E BOMBA.

O enfrentamento imposto pelo "bater de frente" (premissa maior), via de regra, acarretará "tiro, porrada e bomba" (premissa menor), desembocando num cenário de conflitos, conflitos esses que também são rotina para o brasileiro, seja na ocupação de favelas no Rio de Janeiro, seja na amargura da seca nordestina ou quem sabe até numa violenta rotina nas rodovias... batendo de frente... perdendo vidas... (conclusão).

Assim, apesar de toda a polêmica sobre o assunto, ouso fazer observação escorada em uma segunda hipótese, que é a de literalmente pensar a respeito e ao invés de ironizar, extrair algo de fato proveitoso, não necessariamente do funk composto pela senhora Waleska, mas da intenção do professor (de filosofia) que, talvez, quisesse fazer seus alunos transcenderem à obviedade do "batidão" popularizado pela popozuda e no íntimo de suas mentes elevarem o pensamento à atual condição de vida e valores da sociedade contemporânea...
Valquiria Rigon Volpato
08 de abril de 2014.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Uma 'questão' de publicidade...


Lendo acerca da “polêmica” sobre o aluno Francinaldo, de 16 anos, que fizera espécie de brincadeira no corpo da redação exigida pelo ENEM 2014, cujo tema era “publicidade infantil em questão no Brasil”, observei diversos comentários. Algumas análises, como as do INEP e do próprio Francinaldo, prederam minha atenção, não exatamente pelo fato da crítica, mas por me parecerem muito preocupadas com o desmerecimento e pouco com a lógica, sim, a lógica pretendida, ao meu ver, pelo exame aplicado.

O tema proposto buscava dar alerta sobre a publicidade infantil, que se difere das outras chamadas de marketing, isso porque crianças são mais sensíveis a determinadas imagens e falas do que adultos. Não é novidade que o mercado de propagandas se vale de mensagens subliminares para capturar a atenção, assim, como quem não quer nada... Não se trata de paranormalidade ou qualquer outra coisa que pareça ser de outro mundo! Trata-se, tão somente, de estratégia daquele seguimento comercial.

Pelo curto trecho do texto que pude ler - divulgado nas matérias de internet - preciso dizer que Francinaldo, apesar de confessar que fez "brincadeira" durante a composição da redação, foi capaz, ainda que inconcientemente, de se aproximar do tema proposto com sagacidade. O tema era publicidade infantil, que se vale de metodologia distinta, pois almeja conquistar público específico e o aluno - percebam como foi inteligente - escreve a frase “Que tem essa finalidade, porque é meu niver”, inserindo, portanto, na composição textual sua própria publicidade, com metodologia direcionada, chamando a atenção, ainda que não à primeira vista, para sua propaganda pessoal, quiçá objetivando receber alguns presentes?! Francinaldo, 16 anos, paraibano... gênio! E não estou brincando, não!

Os critérios de correção - coerência, coesão, ortografia, concordância - devem ser mantidos e ampliados, até porque não queremos maus escritores, péssimos leitores, no entanto, a pontuação da redação deve considerar a perspicácia, capacidade de organização das ideiais e apromoximação do tema, isto é, capacidade de redigir com intimidade à situação proposta.

Talvez o aluno não soubesse a dimensão do que estava fazendo - uma pena -, porém conseguiu atingir o objetivo e, com um toque de humor, diferenciou-se dos demais textos, que, certamente, ficaram presos à outras questões técnicas, o que não os desmerece, obviamente, mas que os equipara, enquanto Francinaldo fez a diferença...


(Valquiria Rigon Volpato
15 de maio de 2015)

terça-feira, 28 de abril de 2015

Infelizmente, apenas discursos


A gente acaba se cansando dos discursos amargurados, desanimados, fatigados daqueles que, dia a dia, lutam para ser diferentes, mas terminam não conseguindo. Não se trata de um não conseguir movido pela inexistência da tentativa; não. Trata-se do não conseguir de origem externa, da dificuldade desumana de buscar vencer obstáculos e, pateticamente, ficar estagnado, como se força alguma tivesse sido feita.

Discursos cansados, tentativas frustradas, esgotamento. Resta o olhar perdido, pairando sobre o desalento, sobre a materialização do desrespeito, da pouca colaboração, da desunião social. Perecebe-se, nitidamente, a concretização do individualismo frio, insensível às misérias coletivas.

Textos abstratos, tais como este, cavucam no fundo do peito uma dor, uma saudade; saudade de incentivar a guerra contra o descaso, de erguer a voz ante o silêncio insoso de muitos... saudade de relatar fatos e não simplesmente angústias e desgostos.

A gente acaba cansando dos discursos azedos. Canso-me dos meus também. É um atolar-se na movediça areia das desiluções e não adianta o movimento, porque quanto mais se debate, mais se afunda. Talvez o medo do sufocamento explique tanta inércia, contudo é dramático constatar que a única diferença entre os que se movimentam e os que permanecem inertes é o tempo que os conduzem ao mesmo fim: a morte.

Estão morrendo sonhos! Construção frasal utópica; clichê. Não há interesse gramatical na distribuição de palavras tão bestas. Sonhos mortos... Ah, que enfadonho! Onde está a novidade? Prisioneiros da regra de não se render às pormenoridades, uma espécie de obrigação contraída pelo “renascimento” social moderno, pelos modismos, pelas taxatividades e imposições alheias, vivem isolados mesmo em grupo. Comportamento atípico, mas que alcança patamares de normalidade; inversão.

Excetos passam à regras e regras à exceção. A ordem parece ser o desgoverno, a impunibilidade, enquanto perseguir o certo (será mesmo que ainda é certo?) fica pintado como resistência ao sistema. Ante à revogação impositiva da norma social vigente, tal como folha solta ao sabor do vento, vão-se as esperanças de mudança, expectativas de melhora... É, literalmente, findar um texto com reticências...

(Valquiria Rigon Volpato
28 de abril de 2015)

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Por trás do silêncio...

Silenciar nem sempre significa inatividade. Por vezes o silêncio espelha apenas a indignação calada que os olhos capturaram, que a boca não foi capaz de verbalizar e até mesmo a escrita, com sua magnitude, não pôde sintetizar. É cruel aceitar que o silêncio acaba imperando nas situações em que, certamente, o grito seria a melhor opção. Gritar parece fácil e quando se pensa no alto som da voz, a impressão é a de que alguém ouvirá. Como não escutar o brado, ainda mais alto e dolorido partindo de dentro, de onde nasce o desespero por ver, ouvir e não conseguir falar? Contudo, a pior das constatações está na insensível realidade, na malévola atitude pálida e insossa da inoperância, das respostas medíocres, da despreocupação proposital culminada no riso hipócrita do “infelizmente não há o que fazer”. Como admitir isso? Como aceitar a negativa como única opção? Como viver o caos e acostumar-se a ele?

Quando alguém emudece não se pode, simplesmente, pré julgar e apenas concluir: “ficou mudo. Preferiu calar”. Não. De forma alguma. O emudecer de alguém que está acostumado a gritar tem significado muito maior e deve ser visto como (mau) presságio, pois a ausência sonora pode sinalizar a forma mais terrível de sufocamento.

Ninguém sai ileso de uma guerra, não se volta para casa após as batalhas sem marcas; todo confronto finca no soldado alguma cicatriz, ainda que ele não a perceba de imediato. As lesões mais profundas não são as sangrentas, aquelas que expõem o tecido epitelial e devassam a carne. Não. Essas se curam. Fecham. As piores cicatrizes estão talhadas por dentro, onde poucos ou ninguém é capaz de as enxergar e, assim, o combatente sofre a sós, recolhido no pós-guerra, atual drama; vivencia a inquietude interna contrastada com o silêncio exterior. Pergunta-se, talvez, se ao menos o confronto foi vencido, algo que justificaria as feridas. Resposta certeira, como flecha disparada rumo ao coração inimigo, castiga a esperança de quem aguarda, e anuncia: Não. Os flancos permanecem em posição, as trincheiras escondendo futuras dores... a guerra não cessa, as armas não são baixadas um só segundo... Não há fim, por mais que haja feridos ou mesmo mortos.

Beira à loucura aspirar por um cenário diverso, pois parece muito fácil (realizar a mudança) e ao mesmo tempo muito difícil (realizar a mudança). O paradoxo produz espécie de substância nociva à estabilidade emocional, corrompendo neurônios, destruindo as sinapses, deixando o indivíduo apático, inerte; um estado de choque provocado pela discrepância entre o querer e o (não) poder.

Guerreiros calados, feridos, débeis, cansados... Fartos da gordura mórbida dos sistemas administrativos que não andam, não se movimentam, porque pesam demais, porque estão entupidos daquilo que não lhes é saudável, do que os faz cada vez mais inchados e pouco produtivos.

Óleo sobre tela, moldura, um quadro, mas que imagem triste! Artista desafortunado este, retratando o mais lastimável dos cenários. Nome para a obra? Sim. Chama-se “Inércia”. Próxima pintura? Sim. Inspirada nas minorias agonizantes que ainda buscam forças para manterem-se vivas, enquanto esmagadora maioria dorme, eternamente, em berço esplêndido...

Valquiria Rigon Volpato
30 de janeiro de 2015.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Felicidade é pouco. O que eu quero ainda não tem nome!

Deus não me deu asas, mas me permitiu voar!

Salto inesquecível, rampa do Mirante em Vargem Alta - 06/07/2014

http://www.youtube.com/watch?v=RcriO322UoU


segunda-feira, 16 de junho de 2014

"Dois dedos de prosa"...

...e foram só “dois dedinhos de prosa”. Tão rápido quanto engolir o café já nem tão quente. Entre um pensamento e outro, a conversa ligeira e lisonjeira ao passado que ficara para trás. Expressão saudosa, lembrando-se do que ficou parado em algum lugar no tempo, sorria vez ou outra contando com alegria peripécias que viveu. Falava com ardor ímpar sobre as noites e como as via chegar ao fim; das bebidas e bebedeiras. Impregnado do perfume barato misturado ao cigarro, ao álcool, voltava para casa exalando felicidade boêmia, caminhando com passos tortos e olhos miúdos, mas que cintilavam à luz amarelo-alaranjada-incandescente dos postes encontrados rua a fora.

De volta, cabeça pesada sobre o travesseiro, encerrava ali a jornada noturna, sem sonhos, sem reflexos e reflexões, espécie de ponto final, dormia. Nada mais. Pausa. Outra lembrança. Um umidificar de olhos, quem sabe. Continuou. Mais histórias, mais intimidade com a madrugada – não falou sobre o dia; ignorou –, queria mesmo era sentir a noite, sua fervura incomum e, como se fosse possível, durante aquela narrativa, novamente apropriar-se dela, fazê-la sua amante uma vez mais. E como a amou! Imerso nas memórias que trazia à tona, mergulhava suavemente naquele mar de recordações, sem cautelas, sem receios, não temia o farfalhar das ondas, pois já as tinha superado, já as conhecia em detalhes; não ofereciam perigo... Entorpeciam-no de saudades.

Pouco a pouco, diminuiu o ritmo e como se cansado estivesse, sentou-se à beira da estrada da vida, à sombra da idade. Agora o sorriso tinha traços bem marcados, sulcados na face enrugada, deixando, assim, para sempre assinalada a fotografia, a tela que reproduzira, instantaneamente, naqueles “dois dedos de prosa”. Silencioso, voltou a si, retomando o olhar antes preso às imagens que bailavam à sua frente, enquanto saboreava de novo aqueles momentos tão adocicados. O riso foi contido e logo substituído pelo côncavo triste do envergar de lábios... Ele se dera conta de que, apesar de sua excitante projeção, tudo havia ficado para trás; todo aquele movimento de cores e perfumes ficou, caprichosamente, imóvel. Refém de si mesmo e da saudade que o invadira, preferiu desconversar, teve medo que a lágrima recém-formada caísse, evidenciando uma fragilidade que não desejava compartilhar.

Com o último gole de café, ele também se foi. Assim como fazia quando regressava das noites, repousou a cabeça, os agora alvos cabelos, sobre aquele nostálgico amontoado de reticências. Livrou-se de tudo. Empacotou a vida que queria reviver e seguiu em frente, vivendo como se não soubesse, se não quisesse, se não desejasse, se não pudesse, se não sentisse. Escolheu enganar-se.

...

Talvez doesse menos... Ou, talvez, doesse ainda mais.


Valquiria Rigon Volpato
16 de junho de 2014

(ainda sem título. Talvez nunca o tenha)

"...aqui dentro, dentro de mim, ainda é noite."

...amanheceu. É possível que haja luz lá fora. É possível que haja flores colorindo os cenários. É possível que meninos estejam jogando futebol na rua, marcando gols entre traves de Havaianas. É possível que os passarinhos estejam construindo seus ninhos, com gravetos nos bicos, espertos, arquitetos, engenheiros do ar! É possível que, em algumas cozinhas, mães estejam assando bolos de chocolate e enquanto o sabor em forma de cheiro inebria toda a casa, elas cantam ao som da música de suas épocas, músicas que só se escutam nas AMs matinais... É possível que amigos estejam conversando sobre qualquer banalidade que os faça sorrir, sentados nos bancos da praça, onde os pombos os rodeiam à expectativa de migalhas, farelos do pão que seguram envolto a um papel cinza salpicado de preto, papel esse que ganharam na padaria, momentos antes, das mãos do Silva, o José da Silva, nordestino, sujeito de caráter, de sorriso fácil, de vida difícil, de lutas constantes, de amigos incontáveis... Um típico brasileiro. É possível que casais caminhem de mãos dadas e que, sem palavras, um esteja dizendo ao outro como é bom estarem juntos. É possível que, lá fora, a vida aconteça de tantas e tantas formas, com tantas cores, sabores e sons... É possível... e embora acredite em todas as muitas possibilidades, apesar de ter amanhecido lá fora... aqui dentro, dentro de mim, ainda é noite.

(ainda sem título. Talvez nunca o tenha).

Valquiria Rigon Volpato
14 de junho de 2014