"Sempre tenho confiança de que não serei maltratado na porta do céu, e mesmo que São Pedro tenha ordem para não me deixar entrar, ele ficará indeciso quando eu lhe disser em voz baixa:"Eu sou lá de Cachoeiro..."

(Rubem Braga)

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Fugaz

Desejo,
Lampejo,
Piscar de olhos. 
Havia vontade,
Portanto, querer.
Era tanto,
Tão forte,
Por que?
Sem resposta,
Não importa. 
Deixa viver. 
Querer é pouco,
Faz-me louco...
E daí?
Permita acontecer...
Vida é hoje.
Agora é já. 
Pressa? Tenho. 
Medo? Também. 
Ser humano? Sim.
Até a morte... amém!


Valquiria Rigon Volpato
03 de junho de 2017

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Percepção

...foi quando reparei que havia, naquele canto que julgava ser "qualquer", um amontoado de silêncios, incrivelmente, perturbadores. Como não os tinha notado antes? Talvez houvesse palavras demais fazendo barulho.








Valquiria Rigon Volpato
28 de maio de 2017.

Estou indo embora

No mais? Estou indo embora... 
Ser quem ainda não fui, 
Viver como ainda não consegui, 
Conquistar o que pretendia e não alcancei.
Estou indo embora... embora daqui, 
Do comodismo, da mesmice.
Estou indo embora,
Deixando para trás o eu de antes
A vida como ela era...
Embora do que não é diferente.
Indo daquilo que faz mal.
Partindo do que não enriquece, não enobrece. 
Estou... Indo... embora...
O aceno final não é para outro alguém que fica
Mas para mim mesmo. 
Eu fico. 
Eu vou. 
Aquele antigo não serve mais. Encolheu.
O novo está por vir
Só queria dizer "tchau" para as amarras
E dizer "olá" para o amanhã. 
Nunca é tarde para regar esperanças...
Lembranças são do que passou.
Sonho mesmo é com o que virá....

Valquiria Rigon Volpato
27 de maio de 2017

O doce perfume da infância

... descobri que gosto do cheiro do leite. Por duas vezes me surpreendi retirando a caneca de louça do microondas e respirando o aroma do leite quente. O cheiro do leite puro, quente, causou-me sensação boa, conforto, talvez até um gosto de infância. Usando das permissões diárias, aquelas nem tão úteis que damos a nós mesmos, contudo necessárias, permiti-me viver e apreciar alguns minutos contemplativos, dedicados ao leite. Refleti momentos de vida em que ele foi protagonista...

Minha mãe não foi daquelas que praticou o desmame. Resistiu firme e me permitiu mamar até os três anos! Mamava de pé. Nem sei se ela ainda tinha leite para me oferecer... Hoje sei que deveria ter dado descanso a ela, tadinha, mas também serei eternamente grata por ter me permitido experimentar o amor em forma de leite por tanto tempo...

Quando criança, morando na roça, lembro-me de que todos os dias havia leite sobre a mesa; era leite fresco, recém ordenhado, que vinha num galãozinho metálico. Papai ou mamãe buscavam o leite no curral, próximo a casa de vovó e o traziam para casa. Eu tinha fama de "bezerrinha", pois aqueles litros, cinco mais ou menos, eram insuficientes e, no outro dia, lá ia papai buscar mais leite!

Outro episódio inesquecível: vez ou outra, quando era meu pai quem ia "tirar o leite", tirar o leite da vaca, porque era assim que falávamos, eu costumava ir com ele até o curral e às vezes ele permitia que eu tentasse tirar o leite... mas preciso confessar... que péssima ordenhadora eu era! Aos seis anos de idade, por aí, tinha boa vontade, mas nenhum jeito!

Como se fosse hoje - agora - lembro-me claramente dos dias de Semana Santa. Morávamos em outro lugar, mas sempre na roça, e na manhã de quinta-feira várias pessoas apareciam cedinho em casa para buscar o leite do canjicão. Nessa época nós tínhamos bom rebanho e para mim era alegria dividir o leite com a comunidade... As vasilhas saíam cheinhas daquele leite... tão branco, mas isso não impedia de que, cada um dos que iam até nossa casa, também tomassem café com uma fatia de queijo ou "puína". Nossa semana se tornava mais Santa assim... repartindo.

Há alguns dias retomei a rotina de beber leite diariamente; há dois dias o cheiro do leite aquecido me cativou. Percebi, entretanto, que não é o cheiro do leite... trata-se do perfume das lembranças, da simplicidade da vida sem pressa. Percebi saudade... fitei novamente, com carinho, as memórias puras associadas àquele que sempre fez parte de mim. O leite alimentou meu corpo, saciou a fome; o mesmo leite, descobri, também alimentou em mim as mais doces experiências... as mais doces lembranças.


Valquiria Rigon Volpato
17 de maio de 2017

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Asas do coração


Amo a liberdade.
Não há prisão para quem se permite voar!
Saúdo os pássaros no céu;
Um salve à minha ave interior.

Sobre minhas asas,
Não nasci com elas...
Mas cresceram em mim;
Nasceram de dentro...
Do coração.

Abro asas e sorrisos.
Canto mesmo sem saber.
Substituí meu nome;
Agora sou sensação...
Sou emoção...
Sou "deixar"... sou "acontecer".



Valquiria Rigon Volpato
24 de abril de 2017

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Além das obviedades (análise)

Passeando pelas redes sociais durante o feriado de Páscoa, chamou atenção a matéria abaixo. Não me atrai o óbvio; assim, prefiro observar aquilo que está nas entrelinhas...




Existe sempre um contraponto, uma outra versão, outra visão... depende de quem observa; tudo depende, também, da vista do ponto. Se me fosse permitida a opinião, diria: mártir! A imagem é violenta? Sim. Uma cabeça arrancada de seu tronco, de fato, é agressiva, contudo, por entender que nem tudo é o que parece e buscar nisso o não imediato, não habitual, percebo que, assim como na história bíblica (de João Batista), a cabeça de Lula é ofertada (injustamente?) numa camiseta (bandeja) que não é de prata, mas que, consideradas as modernidades, são quase a mesma coisa. Dizer que a imagem é incitação à violência me parece muito óbvio e as obviedades podem não traduzir todos os sentidos; entrelinhas de textos e imagens. Observei a data de circulação da notícia e calha no período em que este nosso Brasil vive intensamente os momentos pascais, a vida de Cristo e suas nuances (tão ou mais violentas do que a imagem do Lula decapitado...). A rainha pediu a cabeça de um dos mais influentes profetas daquele tempo e a exibiu, orgulhosamente, numa bandeja; pediram a morte de Cristo: o que fizeram eles (João, Jesus e Lula!?) para merecerem isso? Enfim, compreensível o levante contra a violência, todavia, esquivando-se do óbvio, ao ver a imagem, afirmaria: Lula, o profeta injustiçado! Talvez o comparasse à Jesus, mas aí já acho que é status demais para o "salvador brasileiro"...


Valquiria Rigon Volpato
16 de abril de 2017

terça-feira, 11 de abril de 2017

Esqueceram. Esqueci. Deduziram.



Esqueceram de perguntar se eu tinha sede.
Esqueceram de perguntar se eu tinha fome.
Esqueceram de perguntar se eu havia dormido.
Esqueceram de perguntar se eu sentia frio.
Esqueceram de perguntar sobre minhas vontades.
Esqueceram de perguntar se eu queria viver (a vida que prepararam para mim).
Esqueceram de me perguntar...


...tanto, que esqueci de dizer.


Não disse se tinha sede,
fome,
sono
ou frio.
Esqueci de dizer quais eram minhas vontades...
Esqueci de dizer qual a vida que eu quis.


Esqueci... e, então...


Deduziram que eu tivesse sede (e tinha?).
Fome (e tinha?).
Sono (e tinha?).
Frio (e tinha?).
Deduziram que eu tivesse vontades (e tinha?).
Deduziram que eu tivesse vida... (e tinha?).


Esqueceram.
Esqueci.
Deduziram...



Valquiria Rigon Volpato
11 de abril de 2017.

segunda-feira, 27 de março de 2017

150 anos de emancipação política de Cachoeiro de Itapemirim - Carta de 1867



Vila do Cachoeiro de Itapemirim – ES,
25 de março de 1867.

Querido amigo,

Os anos estão passando depressa, já não me recordo da última vez que estive contigo, espero que a distância em nada tenha abalado nossa amizade. Tenho novidades para contar e dividir contigo sempre foi uma de minhas grandes alegrias, bem sabes disso. Sinto que a vida está mudando por aqui... A Freguesia de São Pedro do Cachoeiro de Itapemirim agora é Vila do Cachoeiro de Itapemirim, isso significa que estamos crescendo, não é mesmo? Quem poderia imaginar que o pequenino povoado arraigado às margens do Rio Itapemirim viesse a ganhar novos contornos? Tenho refletido sobre os fatos e, apesar de não ser comum ou valorizado que uma moça se impressione com algo mais que não sejam os afazeres cotidianos, de ti jamais escondi meu interesse por assuntos políticos. Entre nós nunca houve segredos!

Esta terra, recentemente descoberta, um modesto povoado crescido junto às “caxoeiras” do rio, cachoeiras que passariam a ser “caxoeiros” do Itapemirim, continua seu caminho de mudanças rumo ao futuro. Poucos sabem exatamente o que está se passando, mas não os culpo; em grande parte é gente simples, que ainda carrega consigo as marcas da colonização, da escravidão... Claro que isso também irá mudar, mas será necessário tempo, o tempo transformador de fatos e gerações.

Em minhas reflexões, tento imaginar como chegamos até os dias atuais e concluo que nada mais aconteceu além daquilo que a ação humana provocou. Quando, em 1812, Francisco Alberto Rubim, donatário da capitania do Espírito Santo, recebeu a missão de promover o povoamento deste lugar, foi dado o primeiro passo que, naturalmente, jamais teria volta. A região era dominada pelos índios, Puris e Botocudos, mas que não foram obstáculos para a gana exploradora dos mineradores em busca do ouro recém-descoberto, para quem desejava cultivar lavouras próximas ao encachoeiramento do rio ou para aqueles que viam, neste espaço, possibilidade de se fixar.

Alguns fazendeiros de Itapemirim, com vistas a estender a amplitude de suas terras, aproveitaram o início do desbravamento para dominarem as margens do rio. O senhor Joaquim Marcelino da Silva Lima, o Barão de Itapemirim, foi um destes... Deteve, por anos, toda extensão da margem direita do rio. Éramos, apesar de tudo, um povoado perdido, banhado pelas águas do Itapemirim... Então vieram os anos 50... 1850! Os primeiros moradores, o comércio, a iluminação, os correios... À medida que as necessidades humanas surgiam, as “modernidades” também chegavam; inevitável.

Pois bem, amigo, hoje, 25 de março de 1867, de modo especial, resolvi lhe escrever, porque sinto que esta data ficará para a história: instalou-se a Câmara Municipal desta Vila do Cachoeiro de Itapemirim! Recebemos o direito de viver sob nossas próprias regras, com capacidade para deliberar! À sessão estiveram presentes os senhores vereadores: Coronel Francisco Xavier Monteiro Nogueira da Gama, Major Misael Ferreira de Paiva, Dr. Joaquim Antônio de Oliveira Seabra, Capitão Francisco de Souza Monteiro, Capitão José Vieira Machado, Capitão Pedro Dias do Padro e Dr. Antônio Olinto Pinto Coelho.

Estou certa de que esta data será lembrada como o dia em que a Vila do Cachoeiro de Itapemirim foi emancipada politicamente. Nem todos sabem o que isso quer dizer, sei disso, mas um dia entenderão o processo pelo qual estamos passando. Repito: o povoado, perdido às margens do rio, agora está autorizado a tomar suas próprias decisões políticas. Emancipar-se é estar livre de qualquer tutela, livre para administrar, para decidir... E, por isso, prevejo que esta data será lembrada com grande importância e honrarias. Em tempos vindouros, nossa gente irá se reunir para aclamar a emancipação, prestar homenagens e rememorar este dia.

Gostaria de poder participar de tudo o que ainda está por vir em termos de progresso e acontecimentos históricos, todavia compreendo que cada um de nós tem seu tempo para existir e sua parcela a contribuir. Imagino como será a Vila, futura cidade... Quantas pontes se estenderão sobre o rio, quantas casas espalhadas por todos os cantos, quantos seremos! Quem seremos nós daqui, quem sabe, 150 anos?!

Hoje, enquanto caminhava pelas ruas, reparei firmemente nas águas do rio e nelas vi refletir, como sentinela, o Itabira, preenchi-me ainda mais de afeto por este lugar, pelo privilégio que é viver circunscrita pela natureza. Gosto de ser bairrista; não é ofensa, é carinho! Ainda leremos bons textos sobre o que lhe disse agora... Alguém, muito orgulhoso, um dia dirá a São Pedro, quando às portas do céu estiver: “Eu sou lá de Cachoeiro”! E outro, em sofreguidão por todas as mazelas cotidianas, será capaz de afirmar: “sensibilidade que é uma antena delicadíssima, captando pedaços de todas as dores do mundo, e que me fará morrer de dores que não são minhas”.

Por isso, valioso amigo, espero que um dia, em praça pública, o povo celebre a emancipação política e, sobremaneira, celebre a consciência de seus direitos e deveres. Espero que saibamos conduzir com sabedoria o destino de nossa Cachoeiro, preocupados sim com o progresso material, contudo ainda mais atentos ao progresso humano... Porque é com gente que se constrói... Alvenarias e também o futuro.

Quero ter notícias suas, escreva-me quando puder e conte como estão as coisas por aí. Não deixarei de lhe dizer a quantas anda a Vila do Cachoeiro, mas exijo que me digas como é viver aí... em 2017! Leve meu abraço a todos, compartilhe com tantos quantos puder minha alegria por ter vivido este momento e não se esqueça, nunca, do nosso “pequeno Cachoeiro”.

Saudações afetuosas desta sua,

amiga cachoeirense!

Valquiria Rigon Volpato

quarta-feira, 18 de maio de 2016

À deriva... A sós


Falar às claras, sem medo de retaliações, sem pensar em poréns e entretantos, sem ser julgado; apenas falar e esquecer que existe ouvinte. Falar. Ah se fosse fácil assim... São tantas voltas, acaba-se até mesmo perdendo o objetivo, não se diz a verdade por completo e, assim, vamos vivendo de meias verdades (ou quase mentiras?). E por quê? Medo de causar ao outro sentimentos menos nobres ou medo de causar em nós os mesmos pobres sentimentos? Por mais que doa a conclusão, por mais egoísta que possa parecer, não há preocupação com o outro. É balela. Cada um tem se preocupado consigo mesmo, levando a vida num mar de individualismos... nem mesmo quando se está “junto” realmente se está “junto”.

O “homem do futuro”, agora, segue o caminho que julga ser melhor e, apesar de estar tão acostumado a compartilhar em suas inúmeras redes sociais, não sabe o verdeiro sentido de compartilhar em sua vida real. E continua assim, dia após dia, crendo que é companheiro, cooperativo. Palavras. Apenas palavras bonitas para serem ditas em momentos oportunos, de modo que, naquela ocasião os ouvintes fiquem cativados por aquela sensação ilusória; mal sabem que a proposta coletiva do momento serve tão somente para que todos ali reunidos encontrem, cada um, seu propósito indivualista e fijam acreditar que estão juntos pelo mesmo objetivo.

No deserto de vontades não convergentes, fica à deriva o ser humano, navegando errante por mares desconhecidos ainda sem saber que está perdido. Quando tomará consciência que se perdeu? Talvez nunca ou, então, quando descobrir que chegou onde queria e, embora tendo chegado, estará a sós com sua vitória. Todos aqueles, os mesmos que foram motivados à coletividade, ficaram para trás, cada qual seguindo rumo a seu particular destino.

Aparentemente tão conectados, tão unidos, mas no fundo sozinhos, bancando os independentes, com risos rasos e dores profundas. Fala-se pouco, verdades aos pedaços, que de tão estilhaçadas nem se sabe onde se encaixam... Produto de multiplicações incertas, divisões forçadas, somas inapropriadas e diminuições traumáticas; entre tantas operações, impossível não notar algumas mutilações. Fragmentos de gente.

Embarcados no que pensam ser a vida, velejam levando consigo a bússula indicadora de nortes específicos; cada um tem o seu. Não são mais direcionados por coordenadas geográficas, são movidos por suas próprias orientações; crêem em suas convicções pré-moldadas. Pouco a pouco vão se distanciando, provocando desencontros, fazendo dos intervalos duras rupturas. Não se importam mais se vão sangrar ou se já estão sangrando. Dói? Quem sabe...? Isolados, ainda que gritem, não serão ouvidos e então todos pensarão que não há feridas... nem dor.

E então cada qual continuará o seu caminho, pisando firme, com decisão, obstinadamente; nenhum dos dois olhará para trás.” (Newton Braga).



Valquiria Rigon Volpato
18 de maio de 2016

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Sepulcros caiados


"Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda a imundícia." (Mt. 23, 27)


É preciso que haja indignação. Lamentável como uns e outros não reagem quando se deparam com mentiras e falsidades. Impossível não se sentir enojado com as tramas e tramoias que acabam por enredar o indivíduo e fazê-lo viver um “faz de contas” especialmente preparado, arranjado nos mínimos detalhes, com finalidades escusas e deslindes devastadores.

As relações humanas têm perdido o visgo que certa vez as promoveu, que as mantinha não como as conhecemos atualmente, mas como no tempo em que ainda eram dotadas de respeito, ainda que minimamente. Perdeu-se o respeito. É trágico. Não se pode olhar cenário tão catastrófico sem que haja um abalo emocional interno, estopim de revolta e asco. Não se pode entender como normal, aceitável, tantas traições descaradas e não sentir pavor, pânico, diferente do medo, contudo associado à repulsa; não se trata simplesmente de sentir calafrios, mas sim de se criar espécie de bloqueio contra o agente propagador da enganação. Extirpar do convívio sócio-habitual aquele que dissemina a daninha praga aniquiladora do crescimento é questão, literamente, de honra.

Quando, ao observar vastas plantações, nota-se a presença incontrolável de pestes, há que se atentar para o meio, identificar condições que possam estar facilitando a proliferação dos invasores. Fatores climáticos, má adubação do solo, ausentes práticas de controle, enfim, parasitas aproximam-se do que os dá condição de sustento, pois sua ação, silenciosa e ao mesmo tempo devastadora, está pautada no quanto podem sugar de suas vítimas, deixando-as enfraquecidas ou até que morram. No campo, a sorte da lavoura está no fator de identificação e início imediato do combate às pragas. Na vida, a sorte do ser humano está, também, na identificação e extermínio daquilo (ou daqueles) que o tentam aniquilar.

Perceber quando o mal está próximo, não permitir que se instale ou, caso instalado, afastá-lo o quanto antes, é a melhor garantia de não sofrer com as consequencias do aproveitamento nocivo praticado pelo agente danoso. É preciso afinar os sentidos, não se deixar levar por achismos, aparências...

A bela e frondosa goiaba, no mais alto galho da goiabeira, desperta desejo, no entanto ao tê-la nas mãos, ao mordê-la com todo afã, enorme é a decepção ao perceber que a belíssima fruta está podre por dentro, invadida por larvas, danificada; era casca. Aparência. E só. A ilusão do belo vive de momentos, não é sólida e constante o suficiente para se sustentar, não é perene, pois o que alimenta (corpo e alma) está por dentro, escondido sob o aspecto exterior, aspecto esse que também irá se deteriorar... Mais ou menos dia a mesma goiaba “exibida” estará reunida às outras tantas que, como ela, certa vez despencaram do galho e agora apodrecem no chão.

Vidas embasadas em mentiras são porosas, rapidamente se esfacelam. Não há máscara que se sustente com o passar do tempo, porque ninguém consegue ser intérprete de sí mesmo por longas datas. Cada ser humano é recheado de questões, “imperfeições”, conflitos e demandas internas; uns resolvem seus problemas, outros omitem sua existência e daí vem a farsa, início do teatro. As primeiras cenas são atrativas e até prendem a atenção do público, porém a extensa e exaustiva sequência de atos se torna desgastante e enfadonha. A plateia passa a não ter mais o mesmo interesse, arranja conversas paralelas, desvia a atenção e, ao final, sequer sabem do que se tratava a peça ou quem, de fato, eram os atores envolvidos. Uma vida teatral e chata.

Mentiras não ficam escondidas por muito tempo, disfarces são disfarces, não são reais. É como dizem: “quem é de verdade sabe quem é de mentira”. Repudiar o falso é instintivo, mas se não o for, deve se tornar atitude. Quem permanece apático ante as enganações acaba por as merecer. A verdade é bandeira dos justos, dos que possuem caráter... Aos pobres de espírito nem mesmo as mais belas peças, tecidas em fios de ouro, cairiam bem; seriam sempre trapos vestindo corpos sem alma...

Valquiria Rigon Volpato
13 de outubro de 2015