"Sempre tenho confiança de que não serei maltratado na porta do céu, e mesmo que São Pedro tenha ordem para não me deixar entrar, ele ficará indeciso quando eu lhe disser em voz baixa:"Eu sou lá de Cachoeiro..."

(Rubem Braga)

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Asas do coração


Amo a liberdade.
Não há prisão para quem se permite voar!
Saúdo os pássaros no céu;
Um salve à minha ave interior.

Sobre minhas asas,
Não nasci com elas...
Mas cresceram em mim;
Nasceram de dentro...
Do coração.

Abro asas e sorrisos.
Canto mesmo sem saber.
Substituí meu nome;
Agora sou sensação...
Sou emoção...
Sou "deixar"... sou "acontecer".



Valquiria Rigon Volpato
24 de abril de 2017

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Além das obviedades (análise)

Passeando pelas redes sociais durante o feriado de Páscoa, chamou atenção a matéria abaixo. Não me atrai o óbvio; assim, prefiro observar aquilo que está nas entrelinhas...




Existe sempre um contraponto, uma outra versão, outra visão... depende de quem observa; tudo depende, também, da vista do ponto. Se me fosse permitida a opinião, diria: mártir! A imagem é violenta? Sim. Uma cabeça arrancada de seu tronco, de fato, é agressiva, contudo, por entender que nem tudo é o que parece e buscar nisso o não imediato, não habitual, percebo que, assim como na história bíblica (de João Batista), a cabeça de Lula é ofertada (injustamente?) numa camiseta (bandeja) que não é de prata, mas que, consideradas as modernidades, são quase a mesma coisa. Dizer que a imagem é incitação à violência me parece muito óbvio e as obviedades podem não traduzir todos os sentidos; entrelinhas de textos e imagens. Observei a data de circulação da notícia e calha no período em que este nosso Brasil vive intensamente os momentos pascais, a vida de Cristo e suas nuances (tão ou mais violentas do que a imagem do Lula decapitado...). A rainha pediu a cabeça de um dos mais influentes profetas daquele tempo e a exibiu, orgulhosamente, numa bandeja; pediram a morte de Cristo: o que fizeram eles (João, Jesus e Lula!?) para merecerem isso? Enfim, compreensível o levante contra a violência, todavia, esquivando-se do óbvio, ao ver a imagem, afirmaria: Lula, o profeta injustiçado! Talvez o comparasse à Jesus, mas aí já acho que é status demais para o "salvador brasileiro"...


Valquiria Rigon Volpato
16 de abril de 2017

terça-feira, 11 de abril de 2017

Esqueceram. Esqueci. Deduziram.



Esqueceram de perguntar se eu tinha sede.
Esqueceram de perguntar se eu tinha fome.
Esqueceram de perguntar se eu havia dormido.
Esqueceram de perguntar se eu sentia frio.
Esqueceram de perguntar sobre minhas vontades.
Esqueceram de perguntar se eu queria viver (a vida que prepararam para mim).
Esqueceram de me perguntar...


...tanto, que esqueci de dizer.


Não disse se tinha sede,
fome,
sono
ou frio.
Esqueci de dizer quais eram minhas vontades...
Esqueci de dizer qual a vida que eu quis.


Esqueci... e, então...


Deduziram que eu tivesse sede (e tinha?).
Fome (e tinha?).
Sono (e tinha?).
Frio (e tinha?).
Deduziram que eu tivesse vontades (e tinha?).
Deduziram que eu tivesse vida... (e tinha?).


Esqueceram.
Esqueci.
Deduziram...



Valquiria Rigon Volpato
11 de abril de 2017.

segunda-feira, 27 de março de 2017

150 anos de emancipação política de Cachoeiro de Itapemirim - Carta de 1867



Vila do Cachoeiro de Itapemirim – ES,
25 de março de 1867.

Querido amigo,

Os anos estão passando depressa, já não me recordo da última vez que estive contigo, espero que a distância em nada tenha abalado nossa amizade. Tenho novidades para contar e dividir contigo sempre foi uma de minhas grandes alegrias, bem sabes disso. Sinto que a vida está mudando por aqui... A Freguesia de São Pedro do Cachoeiro de Itapemirim agora é Vila do Cachoeiro de Itapemirim, isso significa que estamos crescendo, não é mesmo? Quem poderia imaginar que o pequenino povoado arraigado às margens do Rio Itapemirim viesse a ganhar novos contornos? Tenho refletido sobre os fatos e, apesar de não ser comum ou valorizado que uma moça se impressione com algo mais que não sejam os afazeres cotidianos, de ti jamais escondi meu interesse por assuntos políticos. Entre nós nunca houve segredos!

Esta terra, recentemente descoberta, um modesto povoado crescido junto às “caxoeiras” do rio, cachoeiras que passariam a ser “caxoeiros” do Itapemirim, continua seu caminho de mudanças rumo ao futuro. Poucos sabem exatamente o que está se passando, mas não os culpo; em grande parte é gente simples, que ainda carrega consigo as marcas da colonização, da escravidão... Claro que isso também irá mudar, mas será necessário tempo, o tempo transformador de fatos e gerações.

Em minhas reflexões, tento imaginar como chegamos até os dias atuais e concluo que nada mais aconteceu além daquilo que a ação humana provocou. Quando, em 1812, Francisco Alberto Rubim, donatário da capitania do Espírito Santo, recebeu a missão de promover o povoamento deste lugar, foi dado o primeiro passo que, naturalmente, jamais teria volta. A região era dominada pelos índios, Puris e Botocudos, mas que não foram obstáculos para a gana exploradora dos mineradores em busca do ouro recém-descoberto, para quem desejava cultivar lavouras próximas ao encachoeiramento do rio ou para aqueles que viam, neste espaço, possibilidade de se fixar.

Alguns fazendeiros de Itapemirim, com vistas a estender a amplitude de suas terras, aproveitaram o início do desbravamento para dominarem as margens do rio. O senhor Joaquim Marcelino da Silva Lima, o Barão de Itapemirim, foi um destes... Deteve, por anos, toda extensão da margem direita do rio. Éramos, apesar de tudo, um povoado perdido, banhado pelas águas do Itapemirim... Então vieram os anos 50... 1850! Os primeiros moradores, o comércio, a iluminação, os correios... À medida que as necessidades humanas surgiam, as “modernidades” também chegavam; inevitável.

Pois bem, amigo, hoje, 25 de março de 1867, de modo especial, resolvi lhe escrever, porque sinto que esta data ficará para a história: instalou-se a Câmara Municipal desta Vila do Cachoeiro de Itapemirim! Recebemos o direito de viver sob nossas próprias regras, com capacidade para deliberar! À sessão estiveram presentes os senhores vereadores: Coronel Francisco Xavier Monteiro Nogueira da Gama, Major Misael Ferreira de Paiva, Dr. Joaquim Antônio de Oliveira Seabra, Capitão Francisco de Souza Monteiro, Capitão José Vieira Machado, Capitão Pedro Dias do Padro e Dr. Antônio Olinto Pinto Coelho.

Estou certa de que esta data será lembrada como o dia em que a Vila do Cachoeiro de Itapemirim foi emancipada politicamente. Nem todos sabem o que isso quer dizer, sei disso, mas um dia entenderão o processo pelo qual estamos passando. Repito: o povoado, perdido às margens do rio, agora está autorizado a tomar suas próprias decisões políticas. Emancipar-se é estar livre de qualquer tutela, livre para administrar, para decidir... E, por isso, prevejo que esta data será lembrada com grande importância e honrarias. Em tempos vindouros, nossa gente irá se reunir para aclamar a emancipação, prestar homenagens e rememorar este dia.

Gostaria de poder participar de tudo o que ainda está por vir em termos de progresso e acontecimentos históricos, todavia compreendo que cada um de nós tem seu tempo para existir e sua parcela a contribuir. Imagino como será a Vila, futura cidade... Quantas pontes se estenderão sobre o rio, quantas casas espalhadas por todos os cantos, quantos seremos! Quem seremos nós daqui, quem sabe, 150 anos?!

Hoje, enquanto caminhava pelas ruas, reparei firmemente nas águas do rio e nelas vi refletir, como sentinela, o Itabira, preenchi-me ainda mais de afeto por este lugar, pelo privilégio que é viver circunscrita pela natureza. Gosto de ser bairrista; não é ofensa, é carinho! Ainda leremos bons textos sobre o que lhe disse agora... Alguém, muito orgulhoso, um dia dirá a São Pedro, quando às portas do céu estiver: “Eu sou lá de Cachoeiro”! E outro, em sofreguidão por todas as mazelas cotidianas, será capaz de afirmar: “sensibilidade que é uma antena delicadíssima, captando pedaços de todas as dores do mundo, e que me fará morrer de dores que não são minhas”.

Por isso, valioso amigo, espero que um dia, em praça pública, o povo celebre a emancipação política e, sobremaneira, celebre a consciência de seus direitos e deveres. Espero que saibamos conduzir com sabedoria o destino de nossa Cachoeiro, preocupados sim com o progresso material, contudo ainda mais atentos ao progresso humano... Porque é com gente que se constrói... Alvenarias e também o futuro.

Quero ter notícias suas, escreva-me quando puder e conte como estão as coisas por aí. Não deixarei de lhe dizer a quantas anda a Vila do Cachoeiro, mas exijo que me digas como é viver aí... em 2017! Leve meu abraço a todos, compartilhe com tantos quantos puder minha alegria por ter vivido este momento e não se esqueça, nunca, do nosso “pequeno Cachoeiro”.

Saudações afetuosas desta sua,

amiga cachoeirense!

Valquiria Rigon Volpato

quarta-feira, 18 de maio de 2016

À deriva... A sós


Falar às claras, sem medo de retaliações, sem pensar em poréns e entretantos, sem ser julgado; apenas falar e esquecer que existe ouvinte. Falar. Ah se fosse fácil assim... São tantas voltas, acaba-se até mesmo perdendo o objetivo, não se diz a verdade por completo e, assim, vamos vivendo de meias verdades (ou quase mentiras?). E por quê? Medo de causar ao outro sentimentos menos nobres ou medo de causar em nós os mesmos pobres sentimentos? Por mais que doa a conclusão, por mais egoísta que possa parecer, não há preocupação com o outro. É balela. Cada um tem se preocupado consigo mesmo, levando a vida num mar de individualismos... nem mesmo quando se está “junto” realmente se está “junto”.

O “homem do futuro”, agora, segue o caminho que julga ser melhor e, apesar de estar tão acostumado a compartilhar em suas inúmeras redes sociais, não sabe o verdeiro sentido de compartilhar em sua vida real. E continua assim, dia após dia, crendo que é companheiro, cooperativo. Palavras. Apenas palavras bonitas para serem ditas em momentos oportunos, de modo que, naquela ocasião os ouvintes fiquem cativados por aquela sensação ilusória; mal sabem que a proposta coletiva do momento serve tão somente para que todos ali reunidos encontrem, cada um, seu propósito indivualista e fijam acreditar que estão juntos pelo mesmo objetivo.

No deserto de vontades não convergentes, fica à deriva o ser humano, navegando errante por mares desconhecidos ainda sem saber que está perdido. Quando tomará consciência que se perdeu? Talvez nunca ou, então, quando descobrir que chegou onde queria e, embora tendo chegado, estará a sós com sua vitória. Todos aqueles, os mesmos que foram motivados à coletividade, ficaram para trás, cada qual seguindo rumo a seu particular destino.

Aparentemente tão conectados, tão unidos, mas no fundo sozinhos, bancando os independentes, com risos rasos e dores profundas. Fala-se pouco, verdades aos pedaços, que de tão estilhaçadas nem se sabe onde se encaixam... Produto de multiplicações incertas, divisões forçadas, somas inapropriadas e diminuições traumáticas; entre tantas operações, impossível não notar algumas mutilações. Fragmentos de gente.

Embarcados no que pensam ser a vida, velejam levando consigo a bússula indicadora de nortes específicos; cada um tem o seu. Não são mais direcionados por coordenadas geográficas, são movidos por suas próprias orientações; crêem em suas convicções pré-moldadas. Pouco a pouco vão se distanciando, provocando desencontros, fazendo dos intervalos duras rupturas. Não se importam mais se vão sangrar ou se já estão sangrando. Dói? Quem sabe...? Isolados, ainda que gritem, não serão ouvidos e então todos pensarão que não há feridas... nem dor.

E então cada qual continuará o seu caminho, pisando firme, com decisão, obstinadamente; nenhum dos dois olhará para trás.” (Newton Braga).



Valquiria Rigon Volpato
18 de maio de 2016

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Sepulcros caiados


"Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda a imundícia." (Mt. 23, 27)


É preciso que haja indignação. Lamentável como uns e outros não reagem quando se deparam com mentiras e falsidades. Impossível não se sentir enojado com as tramas e tramoias que acabam por enredar o indivíduo e fazê-lo viver um “faz de contas” especialmente preparado, arranjado nos mínimos detalhes, com finalidades escusas e deslindes devastadores.

As relações humanas têm perdido o visgo que certa vez as promoveu, que as mantinha não como as conhecemos atualmente, mas como no tempo em que ainda eram dotadas de respeito, ainda que minimamente. Perdeu-se o respeito. É trágico. Não se pode olhar cenário tão catastrófico sem que haja um abalo emocional interno, estopim de revolta e asco. Não se pode entender como normal, aceitável, tantas traições descaradas e não sentir pavor, pânico, diferente do medo, contudo associado à repulsa; não se trata simplesmente de sentir calafrios, mas sim de se criar espécie de bloqueio contra o agente propagador da enganação. Extirpar do convívio sócio-habitual aquele que dissemina a daninha praga aniquiladora do crescimento é questão, literamente, de honra.

Quando, ao observar vastas plantações, nota-se a presença incontrolável de pestes, há que se atentar para o meio, identificar condições que possam estar facilitando a proliferação dos invasores. Fatores climáticos, má adubação do solo, ausentes práticas de controle, enfim, parasitas aproximam-se do que os dá condição de sustento, pois sua ação, silenciosa e ao mesmo tempo devastadora, está pautada no quanto podem sugar de suas vítimas, deixando-as enfraquecidas ou até que morram. No campo, a sorte da lavoura está no fator de identificação e início imediato do combate às pragas. Na vida, a sorte do ser humano está, também, na identificação e extermínio daquilo (ou daqueles) que o tentam aniquilar.

Perceber quando o mal está próximo, não permitir que se instale ou, caso instalado, afastá-lo o quanto antes, é a melhor garantia de não sofrer com as consequencias do aproveitamento nocivo praticado pelo agente danoso. É preciso afinar os sentidos, não se deixar levar por achismos, aparências...

A bela e frondosa goiaba, no mais alto galho da goiabeira, desperta desejo, no entanto ao tê-la nas mãos, ao mordê-la com todo afã, enorme é a decepção ao perceber que a belíssima fruta está podre por dentro, invadida por larvas, danificada; era casca. Aparência. E só. A ilusão do belo vive de momentos, não é sólida e constante o suficiente para se sustentar, não é perene, pois o que alimenta (corpo e alma) está por dentro, escondido sob o aspecto exterior, aspecto esse que também irá se deteriorar... Mais ou menos dia a mesma goiaba “exibida” estará reunida às outras tantas que, como ela, certa vez despencaram do galho e agora apodrecem no chão.

Vidas embasadas em mentiras são porosas, rapidamente se esfacelam. Não há máscara que se sustente com o passar do tempo, porque ninguém consegue ser intérprete de sí mesmo por longas datas. Cada ser humano é recheado de questões, “imperfeições”, conflitos e demandas internas; uns resolvem seus problemas, outros omitem sua existência e daí vem a farsa, início do teatro. As primeiras cenas são atrativas e até prendem a atenção do público, porém a extensa e exaustiva sequência de atos se torna desgastante e enfadonha. A plateia passa a não ter mais o mesmo interesse, arranja conversas paralelas, desvia a atenção e, ao final, sequer sabem do que se tratava a peça ou quem, de fato, eram os atores envolvidos. Uma vida teatral e chata.

Mentiras não ficam escondidas por muito tempo, disfarces são disfarces, não são reais. É como dizem: “quem é de verdade sabe quem é de mentira”. Repudiar o falso é instintivo, mas se não o for, deve se tornar atitude. Quem permanece apático ante as enganações acaba por as merecer. A verdade é bandeira dos justos, dos que possuem caráter... Aos pobres de espírito nem mesmo as mais belas peças, tecidas em fios de ouro, cairiam bem; seriam sempre trapos vestindo corpos sem alma...

Valquiria Rigon Volpato
13 de outubro de 2015

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Análise, conveniência ou desinformação?


Anualmente, quando vejo a avaliação do Poder Legislativo cachoeirense no jornal fico decepcionada, porque, de forma lamentável, tornar-se perceptível a intenção “vexatória” que o plano de fundo da matéria traz consigo.

Concordo que é preciso fazer mais, fazer melhor, elevar o nível dos debates, atentar-se ao rigoroso cumprimento das leis, fiscalizar atos do Poder Executivo, estar presente nas comunidades, NÃO como muitas vezes a população deseja - um Legislativo travestido de Executivo -, mas presença instrutora, que consiga desmistificar esse esteriótipo “desgraçado” de que vereador deve pavimentar ruas, colocar lâmpadas, patrolar estradas, construir muros, pontes, pagar contas, doar material de construção, comprar botijas de gás, limpar ruas, colocar placas, dar dinheiro para comprar o que quer que seja... Essas não, definitivamente, não são funções do Poder Legislativo. A “praga” instalada nesse conceito está no dito (sábio) da cultura empírica: “o uso do cachimbo põe a boca torta”.

Num passado, lamentavelmente, não tão remoto, e por culpa dos homens do Legislativo, a prática dos FAVORES foi associada com intimidade à capacidade de conquista de votos. Assim, parcela robusta da população acredita que para bem exercer a vereança o representante deve praticar favores como se sua função fosse, tornando cada vez mais difícil o entendimento de que os “homens da lei” devem propor ações que não extrapolem sua competência, competência essa prevista, mormente, na Constituição da República.

As cobranças populares estão com desvio de direção. Cobrar e exigir regularidade não deve ser optativo e sim obrigatório ao cidadão, no entanto não se pode lançar exigências de forma incorreta. Como exigir da vaca que produza refrigerante, se sua função natural é produzir leite? Não podemos culpar a vaca por não fornecer aquilo que não pode! Seguindo ainda no exemplo, mais prudente seria então propor parceria à vaca, de modo que com sua influência no mercado leiteiro, ajudasse a reforçar o brado por refrigerante junto àqueles que o fabricam... O Poder Legislativo pode engrossar as vozes que clamam por melhorias, pode salientar o debate de modo que o Poder Executivo, caso não esteja agindo como deveria, retome seus caminhos.

O cenário político atual não está convidativo ao olhar mais brando, menos acusador e mais observador, de fato; a presunção não é de inocência, muito pelo contrário, embora somente acusar não resolva os problemas – que são muitos. Em meio a lama dos mais tenebrosos pântanos, emerge, quase que imperceptível, a flor de lotus, assim como em meio a tanta desordem e corrupção há aqueles que querem fazer algo para mudar, que ainda trazem no coração a esperança de melhoria e exaurem suas forças em prol do bem comum. Talvez seja este o olhar necessário ao momento: o de quem não mede esforços e dá o melhor de sí para tornar menos árduo o caminhar de todos.

Poderes Legislativo, Executivo e Judiciário formam a tríade de regência social, podem ser amigos, desde que se respeitem e não queiram desempenhar um a função do outro. Quando, por qualquer questão, resolvem praticar atos que são da competência do outro, literalmente, metem os pés pelas mãos e ao invés de ajudar, acabam atrapalhando e causando mais prejuízos do que benefícios.

Particularmente, a Câmara Municipal não deveria estar preocupada em fabricar leis, como foi o mote da matéria realizada, mas sim em buscar a execução de tantas leis que após sua entrada para o mundo jurídico estão à míngua, sem efetividade. O jornal, por sua vez, deveria ir além do “basicão” e apresentar ao público as incontáveis indicações para execução de serviços, os diversos ofícios encaminhados aos órgãos e repartições púbicas solicitando desde informações à regularização da prestação de serviços, as inúmeras reuniões para estudos de projetos de lei – que devem ser de iniciativa do Poder Executivo, mas que o Poder Legislativo abraça como se seus fossem, tão somente para que o trabalho conjunto resulte no melhor para a comunidade. Em que momento a matéria mencionou o CÓDIGO DE POSTURAS, objeto de estudos, audiências públicas e intermináveis debates? Onde está a menção acerca do trabalho das comissões permanentes da casa? A Comissão de Constituição, Justiça e Redação, por exemplo, reúne-se semanalmente, mais do que uma vez por semana, analisa projetos do Legislativo e do Executivo, preocupando-se com detalhes, travando, por vezes, batalhas de opiniões técnicas tão somente para alcançar o melhor para todos e não deixar fugir à legalidade e à justiça -.

Um povo que se cala ante às mazelas políticas se torna permissivo, contudo, um povo que brada demais aos quatro cantos apenas por bradar, sem direcionamento, é como “cão que ladra, mas não morde”; chama atenção, porém não intimida. Repetição de palavras não é opinião, ao contrário do que muitos pensam e como muitos têm feito. As melhores críticas são aquelas capazes de identificar o problema, fazê-lo ser compreendido e apontar possíveis soluções – não as que queremos, mas as que, de fato, cabem.

http://g1.globo.com/espirito-santo/estv-2edicao/videos/t/edicoes/v/populacao-avalia-o-trabalho-de-vereadores-de-cachoeiro-de-itapemirim-es/4370052/

segunda-feira, 18 de maio de 2015

A "grande pensadora contemporânea": Waleska Popozuda!


Para recordar análise feita à época da discussão sobre a "grande pensadora contemporânea" que figurou numa prova da matéria de filosofia. Ainda não havia publicado o comentário que fiz em postagem do amigo (cachoeirense) Sérgio Garschagen. Vamos, portanto, a ela na íntegra, conforme escrevi no Facebook:


Amigos, relendo a questão (fiz isso algumas vezes desde que o tema virou polêmica) devo admitir que (por favor não me crucifiquem) faz algum sentido (não a parte em que ela é chamada de pensadora contemporânea... mas será que não é? O cenário brasileiro atual está tão desse jeito que começo a questionar se Waleska Popozuda, Anitta, um pessoal do axé e outros do pagode não são mesmo os "pensadores contemporâneos"...). Vejamos:

"Se bater de frente" é... é o que?!

É só beijinho no ombro? Não, não me parece a melhor opção, até porque o diminutivo (beijinho) me remete a algo mais suave, que não combina muito com bater de frente! rs.

É recalque? Também creio que não, afinal, a palavra "recalque" é derivação regressiva de "recalcar", que por sua vez nos dá ideia de calar, não deixar manifestar ou, ainda, em termos psicanalíticos seria um "processo inconsciente pelo qual uma ideia, sentimento ou desejo que o indivíduo tem por repugnante é por este excluído de admissão consciente, mas persiste na vida psíquica, causando distúrbios mais ou menos graves (Fonte: dicionário Aurélio). Assim, se bater de frente é recalque?! Penso que não...rs.

É vida longa?!?! Nesta opção repousa o maior antagonismo entre as demais, porque "bater de frente" me causa a impressão de enfrentamento, oposição, um quase guerra (!!!) que, consequentemente, não me parece ser o cenário mais apropriado para uma "vida longa". Digamos que, numa linha de raciocínio (não tão lógico, mas muito lógico se visto sob a ótica do conteúdo da expressão) os termos não se complementam! Se bater de frente (com um caminhão em alta velocidade, por exemplo) as chances de vida longa podem ser drasticamente reduzidas, quiçá aniquiladas! Portanto, definitivamente, a alternativa "d" não seria resposta adequada à questão.

Finalmente ( e de propósito) temos: "É só tiro, porrada e bomba". Fantástico! rs. Pensando bem sobre o caso (e entendo que a prova, que era de filosofia, também tinha tal cunho) a melhor resposta, ainda que o aluno não soubesse a letra a canção (?), que não conhecesse a compositora (?????), teria condições de responder a questão, usando, até mesmo (pasmem!) algo que é próprio da filosofia: o silogismo! Numa aplicação direta (de silogismo lógico) ficaria assim:

SE BATER DE FRENTE...

...É SÓ TIRO, PORRADA E BOMBA.

O enfrentamento imposto pelo "bater de frente" (premissa maior), via de regra, acarretará "tiro, porrada e bomba" (premissa menor), desembocando num cenário de conflitos, conflitos esses que também são rotina para o brasileiro, seja na ocupação de favelas no Rio de Janeiro, seja na amargura da seca nordestina ou quem sabe até numa violenta rotina nas rodovias... batendo de frente... perdendo vidas... (conclusão).

Assim, apesar de toda a polêmica sobre o assunto, ouso fazer observação escorada em uma segunda hipótese, que é a de literalmente pensar a respeito e ao invés de ironizar, extrair algo de fato proveitoso, não necessariamente do funk composto pela senhora Waleska, mas da intenção do professor (de filosofia) que, talvez, quisesse fazer seus alunos transcenderem à obviedade do "batidão" popularizado pela popozuda e no íntimo de suas mentes elevarem o pensamento à atual condição de vida e valores da sociedade contemporânea...
Valquiria Rigon Volpato
08 de abril de 2014.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Uma 'questão' de publicidade...


Lendo acerca da “polêmica” sobre o aluno Francinaldo, de 16 anos, que fizera espécie de brincadeira no corpo da redação exigida pelo ENEM 2014, cujo tema era “publicidade infantil em questão no Brasil”, observei diversos comentários. Algumas análises, como as do INEP e do próprio Francinaldo, prederam minha atenção, não exatamente pelo fato da crítica, mas por me parecerem muito preocupadas com o desmerecimento e pouco com a lógica, sim, a lógica pretendida, ao meu ver, pelo exame aplicado.

O tema proposto buscava dar alerta sobre a publicidade infantil, que se difere das outras chamadas de marketing, isso porque crianças são mais sensíveis a determinadas imagens e falas do que adultos. Não é novidade que o mercado de propagandas se vale de mensagens subliminares para capturar a atenção, assim, como quem não quer nada... Não se trata de paranormalidade ou qualquer outra coisa que pareça ser de outro mundo! Trata-se, tão somente, de estratégia daquele seguimento comercial.

Pelo curto trecho do texto que pude ler - divulgado nas matérias de internet - preciso dizer que Francinaldo, apesar de confessar que fez "brincadeira" durante a composição da redação, foi capaz, ainda que inconcientemente, de se aproximar do tema proposto com sagacidade. O tema era publicidade infantil, que se vale de metodologia distinta, pois almeja conquistar público específico e o aluno - percebam como foi inteligente - escreve a frase “Que tem essa finalidade, porque é meu niver”, inserindo, portanto, na composição textual sua própria publicidade, com metodologia direcionada, chamando a atenção, ainda que não à primeira vista, para sua propaganda pessoal, quiçá objetivando receber alguns presentes?! Francinaldo, 16 anos, paraibano... gênio! E não estou brincando, não!

Os critérios de correção - coerência, coesão, ortografia, concordância - devem ser mantidos e ampliados, até porque não queremos maus escritores, péssimos leitores, no entanto, a pontuação da redação deve considerar a perspicácia, capacidade de organização das ideiais e apromoximação do tema, isto é, capacidade de redigir com intimidade à situação proposta.

Talvez o aluno não soubesse a dimensão do que estava fazendo - uma pena -, porém conseguiu atingir o objetivo e, com um toque de humor, diferenciou-se dos demais textos, que, certamente, ficaram presos à outras questões técnicas, o que não os desmerece, obviamente, mas que os equipara, enquanto Francinaldo fez a diferença...


(Valquiria Rigon Volpato
15 de maio de 2015)

terça-feira, 28 de abril de 2015

Infelizmente, apenas discursos


A gente acaba se cansando dos discursos amargurados, desanimados, fatigados daqueles que, dia a dia, lutam para ser diferentes, mas terminam não conseguindo. Não se trata de um não conseguir movido pela inexistência da tentativa; não. Trata-se do não conseguir de origem externa, da dificuldade desumana de buscar vencer obstáculos e, pateticamente, ficar estagnado, como se força alguma tivesse sido feita.

Discursos cansados, tentativas frustradas, esgotamento. Resta o olhar perdido, pairando sobre o desalento, sobre a materialização do desrespeito, da pouca colaboração, da desunião social. Perecebe-se, nitidamente, a concretização do individualismo frio, insensível às misérias coletivas.

Textos abstratos, tais como este, cavucam no fundo do peito uma dor, uma saudade; saudade de incentivar a guerra contra o descaso, de erguer a voz ante o silêncio insoso de muitos... saudade de relatar fatos e não simplesmente angústias e desgostos.

A gente acaba cansando dos discursos azedos. Canso-me dos meus também. É um atolar-se na movediça areia das desiluções e não adianta o movimento, porque quanto mais se debate, mais se afunda. Talvez o medo do sufocamento explique tanta inércia, contudo é dramático constatar que a única diferença entre os que se movimentam e os que permanecem inertes é o tempo que os conduzem ao mesmo fim: a morte.

Estão morrendo sonhos! Construção frasal utópica; clichê. Não há interesse gramatical na distribuição de palavras tão bestas. Sonhos mortos... Ah, que enfadonho! Onde está a novidade? Prisioneiros da regra de não se render às pormenoridades, uma espécie de obrigação contraída pelo “renascimento” social moderno, pelos modismos, pelas taxatividades e imposições alheias, vivem isolados mesmo em grupo. Comportamento atípico, mas que alcança patamares de normalidade; inversão.

Excetos passam à regras e regras à exceção. A ordem parece ser o desgoverno, a impunibilidade, enquanto perseguir o certo (será mesmo que ainda é certo?) fica pintado como resistência ao sistema. Ante à revogação impositiva da norma social vigente, tal como folha solta ao sabor do vento, vão-se as esperanças de mudança, expectativas de melhora... É, literalmente, findar um texto com reticências...

(Valquiria Rigon Volpato
28 de abril de 2015)